quarta-feira, 27 de abril de 2011

Muito prazer, eu sou a culpa

Assim que uma pessoa tem filhos, é imediatamente apresentada a um novo sentimento: a culpa. Tudo bem, não é exatamente novo, provavelmente já o sentimos em vários outros momentos de nossas vidas. Mas certamente a culpa nunca apareceu com tanta intensidade, frequência, ou por razões aparentemente tão pequenas e inexplicáveis.
Culpa porque seu bebê fez cocô e você percebeu apenas depois de algum tempo. Culpa porque acidentalmente arranhou seu bebê enquanto o trocava. Culpa porque precisa deixar seu bebê chorando enquanto toma banho, faz almoço, ou qualquer outra coisa que não possa fazer com ele no colo. Culpa porque não conseguiu amamentá-lo com leite materno. Culpa por ter que levá-lo para tomar as vacinas, mesmo sabendo que a longo prazo trará apenas benefícios ao bebê. Culpa porque não passa tanto tempo por dia brincando com o bebê como acha que deveria. Culpa porque a fralda vazou durante a noite e ele passou algumas horas com a roupa molhada. Culpa porque você colocou roupas demais (ou de menos) no bebê e agora ele está passando calor (ou frio). Culpa por amaldiçoar o dia em que decidiu engravidar, o que costuma acontecer naquelas noites em que seu bebê decide acordar às 3 da madrugada e não dormir mais. Culpa porque se irritou com o bebê durante aquela crise interminável de choro. Culpa porque ele está com dor de ouvido (já que o deixou no vento durante dois segundos enquanto tentava abrir a porta do carro e segurar a coberta ao mesmo tempo). Culpa porque ele está com prisão de ventre... (você pode aproveitar as reticências e completar o texto com culpas de sua própria experiência).
Além disso, não podemos deixar de mencionar outras culpas que não estão diretamente relacionadas ao bebê, mas que surgiram a partir do momento em que ele nasceu.
Culpa por estar descuidada de sua aparência, o que inclui unhas, depilação e cabelos sempre por fazer. Culpa por manter contato com seus amigos com menos freqüência. Culpa por quase nunca ter tempo e disposição para dar atenção ao marido. Culpa por sentir-se menos produtiva no trabalho. Culpa por não conseguir manter a casa tão organizada quanto costumava. Culpa por não poder dedicar-se tanto ao restante da família. Culpa por ainda não haver perdido o peso que ganhou durante a gravidez. Culpa. Culpa. Culpa.
           Qual será o motivo que faz com que as mães vivenciem tal sentimento tão intensa e frequentemente? Tenho uma teoria: “A Síndrome da Mulher Maravilha”. Esta síndrome nos acomete ainda antes de sermos mães, mas certamente se intensifica muito com a maternidade. Ela consiste na obrigação permanente que sentimos de desempenhar todas as ações de nossas vidas com a máxima perfeição. Falei difícil? Traduzindo: QUEREMOS SER PERFEITAS EM TUDO O QUE FAZEMOS! E nem preciso dizer o quão impossível é isto.
A verdade é que precisamos desempenhar inúmeros papéis: mãe, esposa, amante, dona de casa, cozinheira, profissional, filha, irmã, amiga, mulher, entre muitos outros. A sociedade exige que desempenhemos todos eles com a máxima perfeição, com um sorriso no rosto e de preferência com unhas e maquiagem sempre feitas. E a pressão aumenta ainda mais quando aquela atriz famosa aparece na televisão três meses depois de ter um bebê e ela está radiante, com o corpo perfeito e faz questão de dizer o quanto sua vida sexual e amorosa está ainda melhor do que antes. Será verdade? Pode até ser em partes, mas não devemos esquecer da equipe de babás, domésticas, esteticistas e profissionais de saúde que assessoram esta mãe, além da pressão que ela sofre de mostrar ao público apenas o lado bom e as vantagens da maternidade. Ninguém quer ver aquela cantora famosa falando na televisão o quanto sua vida sexual piorou depois do nascimento do bebê.
              A pergunta que toda mãe deve fazer a si mesma é: fiz o melhor que pude, considerando todas as circunstâncias? Dispensei os melhores cuidados que pude ao meu bebê, considerando que não tenho babá, empregada, e preciso trabalhar fora? Dediquei o máximo de atenção que pude ao meu marido, familiares e amigos, considerando o quanto meu tempo ficou reduzido após o nasicmento de meu filho? Estou cuidando de mim mesma o máximo que posso, considerando a atual redução de tempo e dinheiro disponíveis? Se a resposta a tais questões for não, analise (sem neuras) o que pode fazer para reverter o quadro (ATENÇÃO: eu disse o que PODE fazer, ou seja, o que está ao seu alcance e não o que é impossível). Se a resposta for sim, ótimo! Você está fazendo o melhor que pode e precisa mandar a culpa para bem longe, pela felicidade de sua família e por sua própria sanidade mental. Lembre-se que a primeira pessoa que deve se convencer de que não precisa fazer tudo com perfeição é você mesma; só assim as demais pessoas serão capazes de se conscientizar do mesmo.



domingo, 10 de abril de 2011

Carta de um bebê que não foi amamentado


Enfim eu nasci. Confesso que não foi uma experiência muito agradável, tive que sair do meu cantinho quente, escuro e confortável. Mas é inevitável, certo? Tenho que encarar o mundão aqui fora...
Os primeiros dias não foram fáceis! Eu achava tudo muito estranho: as luzes, as cores, os sons, o frio, tudo! Mas o mais difícil de aguentar era aquela dorzinha incessante que em sentia na minha barriguinha. Aos poucos fui entendendo que ela se chama fome.
A mamãe bem que tentou fazer a dorzinha passar, mas foi complicado. Primeiro eu é que não sabia mamar; ela colocava o porta-mamá dela na minha boquinha (acho que chamam aquilo de seio), mas eu não sabia direito o que fazer. Notei que a mamãe ficava muito nervosa com isso, mas eu realmente não sabia o que fazer! A dor na minha barriguinha ia aumentando, a mamãe chorava de um lado e eu chorava do outro.
Depois de uns dois dias eu pensei: “Já sei! Acho que se eu der umas sugadas neste porta-mamá essa dor vai passar. Deve ser por isso que a mamãe coloca ele na minha boca”.  E foi o que eu fiz. E não é que funcionou? Quanto mais eu sugava, mais saía de lá aquele líquido quentinho e docinho, e que aliviava bastante aquela dor. Mas tinha um problema: mesmo depois de sugar um tempão (ouvi a mamãe dizendo que eu ficava mamando 20, 30 minutos), a dor não ia totalmente embora. Ela aliviava, mas não passava, e o pior, voltava rapidinho com toda a força. Eu não tinha outra opção além de chorar, chorar e chorar. A mamãe e o papai já estavam cansados, pois eu não os deixava dormir direito. Mas a fome era muito grande!
Depois de alguns dias, fomos num tal de pediatra (depois fiquei sabendo que esse cara vai cuidar da minha saúde enquanto eu for criança), e a mamãe contou toda a situação para ele. Ele deu um remedinho para a mamãe tomar, para ela ter mais leite (que é o tal líquido quentinho e docinho que eu falei). A mamãe tomou o remedinho e fez várias outras coisas que ensinaram a ela; mas nada adiantou, minha barriguinha continuava doendo, doendo, e eu chorando, chorando. Quando pensei que as coisas não podiam ficar piores, o tal do leite que já era pouco começou a diminuir cada vez mais, acreditam? Eu sugava, sugava, e saía cada vez menos do porta-mamá. E o pior é que a mamãe demorou uns dias para perceber o que estava acontecendo, tive que chorar muito!Mas uma dia ela percebeu e ligou para o tal do pediatra para explicar a situação e perguntar o que fazer. Não ouvi o que ele disse, mas fiquei observando o que a mamãe fez: ela pegou uma garrafinha com uns desenhos legaizinhos, pegou uma coisa branca de dentro de uma lata, colocou na garrafinha, colocou água e chacoalhou. Depois colocou na garrafinha uma tampinha bem parecida com a do meu porta-mamá e a colocou na minha boca. De repente eu percebi: esse é outro porta-mamá! A diferença é que ele tem muuuuito mais do tal leite. A dorzinha na minha barriga sumiu! Às vezes ela volta, mas é só a mamãe me trazer esse porta-mamá novo (descobri que se chama mamadeira) que ela passa.
Só tem uma coisa que me deixa triste. Vejo muitas pessoas criticando minha mamãe porque ela me dá a tal da mamadeira e não o tal do seio. Esses dias ouvi falarem na televisão que amamentar no seio é um ato de amor. Pode até ser, mas preciso dizer algumas coisas para quem acha que amamentar na mamadeira não é amor...
Vejo o papai e a mamãe deixando de comprar várias coisas para eles para poderem comprar para mim um leite em pó (que é aquela coisa branca que vi a mamãe tirando da lata) de boa qualidade, além de mamadeiras bem bonitas com desenhos legais. Se isto não é amor, então não sei o que é!
O papai e a mamãe levantam de madrugada e vão até a cozinha fazer minha mamadeira toda vez que eu tenho fome, mesmo que eles estejam muito cansados ou que esteja muito frio. Se isto não é amor, então não sei o que é.
Quando o papai e a mamãe me dão mamá, eles sentam no sofá bem grudadinhos comigo e a gente fica se olhando nos olhos enquanto o tal do leite faz a dor na minha barriguinha passar. Se isto não é amor, então não sei o que é. Aliás, uma das coisas legais da mamadeira é essa; meu papaizão que eu adoro também pode me alimentar!
Além disso, percebi que tem várias outras formas de amar além da amamentação, e o papai e a mamãe fazem todas elas: eles me beijam e me abraçam toda hora (às vezes até me irrita um pouco, mas eu sei que a intenção é boa). Eles ficam empolgados com qualquer coisa que eu faço, até quando abro a boca para bocejar. Parecem uns bobos. Todo mês eles me levam no tal do pediatra e também para tomar as tais vacinas; tudo bem que eu não gosto muito dessa última parte, mas eu sei que é para o meu bem. Eles me dão banho gostoso todos os dias. Eles me pegam no colo e me consolam quando estou triste, bravo, ou qualquer coisa assim. Eles brincam comigo e me fazem morrer de rir. Eles me protegem com um cobertor quentinho quando está frio. Eles não me deixam perto de pessoas doentes. Eles só deixam pessoas conhecidas e de confiança cuidarem de mim. Nossa, se eu fosse falar todas as coisas que o papai e a mamãe fazem que mostram o quanto eles me amam, isso aqui nunca mais acabava.
Para terminar, o que eu quero dizer com tudo isto é: se eu que sou pequeninho percebi que não amamentar não diminui em nada o amor que a mamãe tem por mim, acho que quem é grande também pode perceber, não é? Só sei que sou um bebê muito feliz, mamando em qualquer porta-mamá!

terça-feira, 22 de março de 2011

Conselho de mãe

              A coisa mais difícil para uma mãe, especialmente de primeira viagem, é aprender a cuidar do bebê, segurá-lo, alimentá-lo, trocar as fraldas, dar banho, etc., certo? Errado. O mais difícil é ter que lidar com uma infinidade de pessoas que querem ensiná-la a cuidar do bebê. Os conselhos são intermináveis:
- “Não segure ele assim”;
- “Você não dá chá para ele? Mas é importante para hidratá-lo!”; ou
- “Você dá chá para ele? (em tom de indignação) Mas ele é muito novinho. O correto é dar só leite”;
- “Este menino está com muita roupa”; ou “Este menino está com pouca roupa” (às vezes referindo ao MESMO traje no MESMO dia!)
-“Para que penteá-lo? Para que passar creme nele?”
- “Você demora muito para trocá-lo. Ele está com frio!”...
Enfim, se todos os conselhos ouvidos por uma mãe de primeira viagem fossem listados aqui, este post seria grande demais para a capacidade do blog. O fato é que tais conselhos, quando não requisitados, exercem os mais diversos efeitos sobre a mãe, e pode ter certeza, nenhum deles agradável. Um dos principais é o sentimento de incapacidade; ouvir tantos conselhos faz com que a mãe questione-se se está cuidando do bebê de maneira adequada, pois se estivesse as pessoas não interfeririam desta forma. Às vezes a mãezinha deixa de sentir-se mãe de verdade, sente-se como uma menina brincando de boneca. Outro sentimento, obviamente, é a insegurança: se alguns dizem que o bebê está com excesso de roupas e outros não, se alguns dizem para dar determinado alimento e outros não, QUAL ORIENTAÇÃO A MÃE DEVE SEGUIR? Além disso, a mãe passa a sentir-se constantemente avaliada, o que faz com que perca totalmente a espontaneidade ao cuidar do bebê, e procure fazer o que os outros esperam que façam e não o que deseja realmente.
A verdade é que não existe apenas uma forma de ser mãe. A relação de cada mãe com cada bebê será construída de maneira única, a passos lentos, e por meio da experimentação. Está comprovado que uma das maneiras mais eficazes de aprendizagem é o “ensaio e erro”, e isto também vale para a maternidade. É errando que a mãe de primeira viagem aprenderá a ser mãe. Não existe outra forma, e os conselhos não evitarão que tais erros aconteçam.
Mais curioso ainda é ver tais conselhos partindo de mulheres que ainda não são mães...
“Se conselho fosse bom, a gente não dava, vendia”. Acho que esta é a mensagem deste texto. Mesmo assim, não resisto, vou ter que dar alguns conselhos mesmo apresentando uma posição contrária aos mesmos. Na verdade são mais pedidos (ou seriam súplicas?) do que conselhos.
a)Conselho de uma mãe de primeira viagem para mães experientes: deixem que a nova mãe experimente, tente, crie sua própria maneira de ser mãe. E não se preocupem, se ela precisar de ajuda nesta nova condição certamente a requisitará!
b)Conselho de uma mãe de primeira viagem para as não-mamães: guardem sua forma de ser mãe para os bebês que um dia virão. Eles irão precisar!
c)Conselho de uma mãe de primeira viagem para as outras mães de primeira viagem: sua forma de ser mãe é única. Ninguém tem o direito de lhe privar desta aprendizagem, que apesar de difícil é uma das mais prazerosas do mundo. Lute por ela!

sexta-feira, 11 de março de 2011

O pequeno vilão

Era uma vez um pequeno vilão (na verdade esta pequena história vai ser narrada no tempo presente, apenas achei que “era uma vez” foi o jeito mais atrativo de iniciá-la. Clichê, mas atrativo). Quando eu digo pequeno, é pequeno mesmo, literalmente pequeno. Acreditem, ele tem mais ou menos 50 cm de altura (ou deveria dizer comprimento?). O vilão é realmente malvado. Seu passatempo preferido é torturar todos à sua volta, tanto física quanto psicologicamente. Quase um sociopata, esse vilãozinho. Formas de tortura? As mais variadas. Uma delas foi usada inclusive como tortura de guerra: privação de sono. Isso mesmo, o pequeno vilão não deixa que suas vítimas durmam, e quando deixa, faz com que elas despertem poucas horas ou até minutos depois. Outra forma de tortura adotada pelo vilãozinho é a privação de higiene e alimentação. Assim que as vítimas resolvem alimentar-se, tomar banho, ou ir ao banheiro, o pequeno vilão as impede emitindo um som contínuo, irritante, e que não pode ficar sem pronto atendimento. O vilão também adora fazer com que as pessoas à sua volta sintam-se constantemente inseguras e em dúvida. Como ele faz isso? Simples, ele insiste em utilizar um idioma que ninguém, mas ninguém mesmo no mundo compreende. Assim, as vítimas do pequeno vilão nunca sabem com certeza o que ele quer, precisam ir oferecendo-lhe várias coisas até descobrir sua necessidade. E saibam que isto pode levar horas...
Por que o pequeno vilão faz isso? Aparentemente sem motivo. A verdade é que o vilãozinho quer que todos os seus desejos sejam prontamente atendidos, sem preocupar-se se os demais também possuem necessidades a serem satisfeitas. Aliás, ele nem sabe que os outros também possuem necessidades. E o mais curioso é que as maiores vítimas do pequeno vilão são justamente as pessoas que mais o atendem e o amam.
Já descobriu quem ele é? Não? Então lá vai mais uma pista. Além de ser um profissional na arte da tortura, o pequeno vilão possui outro poder. Ele consegue ser imediatamente perdoado por suas maldades. Não há raiva, não há rancor, não há desejo de vingança contra o vilãozinho. Por pior que tenha sido a tortura, por mais horas que as vítimas tenham passado acordadas, por mais fome que estejam sentindo, por mais inseguras que estejam, elas sempre perdoam o pequeno vilão de forma instantânea. Como? Ele possui várias armas para tal finalidade, e estas armas são mais simples do que você imagina. Basta um olhar do vilão, bem dentro dos olhos de suas vítimas, e tudo está resolvido. Um simples balbucio sem sentido também faz com que o torturado esqueça todas as maldades que sofreu. Mas a arma mais poderosa e de efeito mais rápido é o sorriso do pequeno vilão; seja ele genuíno ou causado por um movimento involuntário dos músculos do rosto do vilãozinho, um sorriso apaga da memória das vítimas todo e qualquer resquício de sentimento ruim por esta pequena criaturinha.
Na verdade, há vários pequenos vilões espalhados pelo mundo todo, e a cada dia mais pessoas tornam-se vítimas deles. O mais curioso é que muitas pessoas escolhem ser vítimas de um pequeno vilão, às vezes mais de uma vez. E por que fazem tal escolha? Entre outras coisas, para ter contato com as armas do vilãozinho, as mesmas armas descritas ali em cima. E não há nada mais prazeroso do que ser vítima de tais armas várias vezes por dia, durante vários dias, semanas e anos.
A identidade do pequeno vilão? É variável. Para descobri-la, olhe para o serzinho que neste momento dorme no bercinho ao lado da sua cama, no carrinho no canto da sala de estar, ou brinca com objetos coloridos dentro do chiqueirinho. É isto mesmo, é ele. O pequeno vilão estava dentro de sua casa o tempo todo. Saber disto vai fazer com que você o ame menos, ou queira livrar-se dele? Certamente não. Apenas o fará compreender que tem o privilégio de ser mais uma vítima de um pequeno vilão, com todas as angústias e prazeres que tal condição carrega.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Os primeiros dias de uma mãe de primeira viagem

Quando uma mulher fica grávida, todos ficam cheios de expectativas. Tudo o que se diz é a respeito do bebê que está para chegar, imagina-se como será a carinha, compram-se roupinhas, móveis, brinquedos... Os que já têm filhos contam o quanto é gratificante ter um bebê em casa, comenta-se apenas a respeito da plenitude desta nova fase da vida. O que ninguém conta para a futura mamãe é o quanto são difíceis os primeiros dias com o bebê, especialmente para as mães de primeira viagem. Talvez porque as pessoas se esqueçam deste curto (mas sofrido) período, talvez porque não queiram assustar a gestante. O fato é que se tais dificuldades fossem compartilhadas, provavelmente as mães de primeira viagem pudessem encarar o sofrimento dos primeiros dias com mais naturalidade.
Tudo começa na maternidade. De repente, você não está mais grávida. Deixou de ser o centro das atenções, deixou de ser motivo de preocupação e cuidados (tudo bem, isto ainda dura um tempo durante a recuperação do parto, mas é só!). Ao invés disso, ao seu lado está uma criaturinha indefesa, extremamente frágil e totalmente dependente. E acredite, neste primeiro momento não é amor o que você sente por ele... é uma mistura de sentimentos: vontade de proteger, orgulho por ter “feito” essa pessoinha linda, medo de machucá-lo, mas amor, amor mesmo, você só sentirá por ele depois alguns dias. É a cada troca de fraldas, a cada mamada, a cada banho, a cada vez que o embala para dormir que seu sentimento por ele vai sendo construído. E aí começa a primeira dificuldade; todos disseram que você o amaria instantaneamente, assim que olhasse para ele, assim que o pegasse no colo, mas não é bem isso que você sente! Com certeza sente muitas coisas boas por ele, mas não sabe se é exatamente o que denominamos “amor”. Você olha para ele e não sabe direito o que sentir. Então começam os questionamentos: “Será que eu sou normal? Será que conseguirei amá-lo? Será que meu instinto materno está com defeito?”. Acredite, vínculo é algo que precisa ser construído, inclusive com seu filho. Você amou seu marido assim que o viu, do mesmo jeito que ama hoje? Você amou seus amigos no momento em que os conheceu? Certamente a resposta é não. Com os filhos é a mesma coisa; o vínculo se fortalecerá e ficará mais intenso a cada dia, ele não surge magicamente no momento do nascimento.
Depois vem a alta do hospital, o momento de ir para casa com o bebê. Receber alta parece ser um momento apenas de alegria e até de alívio, certo? Errado. Não nesta situação, muito menos para as mães de primeira viagem. Você ficará aflita ao pensar em levar o bebê para casa, em saber que agora é só você e ele (ou no máximo seu marido ou alguém que lhe ajudará com os cuidados do bebê). A vontade é de levar as enfermeiras para casa... será que posso? Só uma delas então? Não, agora você está por sua conta e risco. Sentir medo ao invés de alegria neste momento é absolutamente normal; estranho seria não temer uma situação tão nova e desconhecida.
Finalmente, os primeiros dias em casa... ah, os primeiros dias. O momento tão sonhado chegou. Você está com seu bebê, e depois de tantos meses de espera finalmente irá inaugurar o bercinho, as roupinhas, o carrinho, os perfumes, creminhos e aquela infinidade de mimos que foi juntando ao longo da gestação. Uma delícia não é? Nem tanto. Os primeiros dias servem única e exclusivamente para que você se adapte ao bebê e ele se adapte a este novo mundo aqui fora. Não sobra tempo e nem disposição para curtir todas as coisas que você comprou ou ganhou de presente para ele. Uma infinidade de novas situações terá que ser enfrentada: noites mal dormidas (o que é extremamente difícil para quem costumava dormir pelo menos oito horas seguidas), crises de choro intermináveis (e em alguns momentos absolutamente nada do que você faz é capaz de cessá-las), dificuldade para amamentar (alguns bebês não têm força para mamar nos primeiros dias, algumas mães não têm leite o suficiente, e às vezes as duas coisas acontecem juntas), visitas intermináveis (as visitas até são rápidas, o que é grande é o número de pessoas que aparecem para conhecer o bebê), e outras situações que podem aparecer variando de caso para caso. Além de tudo isso, você vai estar se recuperando de um parto (seja ele normal ou cesáreo), estará sentindo dor e sua mobilidade estará extremamente diminuída.
Pode ser também que você tenha crises de tristeza e de choro. Não se preocupe, a não ser que isto dure mais do que quinze a trinta dias, este sentimento é absolutamente normal. Existem inclusive pesquisas que dizem que assim que o bebê nasce o funcionamento cerebral da mãe passa por modificações, tornando-a mais sensível e insegura. É como se a mãe sofresse uma espécie de “regressão” para que consiga identificar-se com as necessidades do bebê.
Este cenário dura alguns dias. Sua vida estará de pernas para o ar durante este período; a casa fica bagunçada, você fica extremamente tensa e a sensação é de que nada nunca mais voltará ao normal. Você pensa que nunca mais conseguirá trabalhar, ter vida social, ou simplesmente sentar em frente à televisão para assistir a novela ou aquele programa de auditório que é exibido durante a tarde.
Entretanto, aos poucos tudo volta aos eixos. É claro que sua vida mudou totalmente, mas você adapta-se a esta nova condição, aprende a lidar com as novas exigências que ela lhe impõe. Você aprende que não é preciso sentir-se tensa e preocupada o tempo todo, as coisas acontecerão a seu tempo e quando acontecerem você achará uma forma de lidar com elas. Você até encontra tempo para ligar para aquela amiga com quem não conversa desde que seu bebê nasceu, ou pintar as unhas do pé que estão em frangalhos. Mas tenha a clareza de que é necessário passar por este primeiro período de desorganização e insegurança, e que é normal, mais do que normal, é comum sentir-se ansiosa e até infeliz nos primeiros dias de maternidade. Recorrendo a uma metáfora bem grotesca, é como fazer depilação com cera quente: você precisa suportar aquela meia hora de dor para poder desfrutar de um mês de pernas bonitas! O importante é saber que assim como a dor da depilação, o sofrimento inicial da maternidade é inevitável. Mas ele vai passar, a seu próprio tempo mas vai passar, e a partir daí cada dia tenderá a ser mais fácil e mais feliz ao lado de seu bebê.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Maternidade: o maior paradoxo que existe

Pense na cena: são 2 da madrugada. Você foi dormir depois da meia-noite, já que seu bebê recém nascido não parava de chorar, mesmo estando de barriga cheia, fralda limpa e medicado para cólicas. De repente... adivinha? Ele começa a chorar novamente! E você começa tudo de novo: troca a fralda, alimenta, faz massagem e compressas quentes na barriguinha (você bem que queria medicá-lo novamente, mas o fez há poucas horas e teme uma super dosagem) , passeia pela casa, canta, e tudo isso enquanto suas pálpebras parecem pesar cinco quilos cada uma.
Várias coisas passam pela cabeça de uma mãe em um momento como este, e certamente uma delas é: “Por que eu fui engravidar? Devia ter continuado com minha vidinha de antes, quando dormia, comia e saía quando bem entendia, e não quando ele deixava.” Você já pensou assim enquanto cuidava do seu bebê? Admita apenas para si mesma, ninguém vai saber... Se a resposta for sim, não se preocupe, você é ABSOLUTAMENTE NORMAL. Se a resposta for não, isto também não é motivo de preocupação, porque UM DIA VOCÊ VAI PENSAR! Pode ser na próxima noite em que seu bebê não a deixe dormir ou daqui a quinze anos, quando você não conseguirá dormir porque novamente são 2 da madrugada e ele ainda não chegou em casa daquela saída com os amigos. É certo, é mais do que certo, que este tipo de pensamento passa pela cabeça de TODAS as mães em algum momento. E é mais certo ainda que quase nenhuma tem coragem de admitir, já que chocaria muitos e daria a impressão de que você não é uma mãe boa o suficiente, ou que não ama seu filho como deveria. Mas a verdade é que, mesmo pensando assim, você ama seu filho mais do que tudo no mundo. Mesmo questionando se ser mãe foi sua decisão mais acertada, isso não a torna menos mãe ou uma mãe ruim.
Volte à cena do início. Aquela, às 2 da madrugada, lembrou? Mesmo com suas pálpebras pesando cinco quilos cada uma, você ainda consegue olhar para baixo, para aquele serzinho nos seus braços. E é aí que todas as suas perguntas são respondidas... “Por que eu fui engravidar?”.  Para ter esses olhinhos, indefesos e totalmente dependentes, olhando para você com total confiança e esperando que você lhe dê o conforto de que precisa. “Por que eu não continuei com aquela vidinha de antes?”.  Simplesmente porque ela não lhe completava; ela já havia virado uma rotina sem sentido e este bebê preencheu um vazio que você nem sabia que existia.
E isto é ser mãe. Como diz o título, o maior paradoxo que existe. Você irá do inferno ao paraíso em alguns segundos, e para isto basta uma crise de choro interminável do seu bebê (inferno) ou um olhar dele mostrando que reconhece você, que sabe que esteve dentro de você por nove meses, e por isso sente-se seguro com você (paraíso). Mas pense bem, tudo nesta vida é paradoxal: o trabalho proporciona prazer e sofrimento, às vezes os dois ao mesmo tempo. O casamento traz alegrias e tristezas, tanto que elas fazem parte do texto proclamado pelos noivos em qualquer cerimônia. As demais relações de nossas vidas também são exemplos disso, sejam elas de amizade ou com a família. Até a relação com seu próprio corpo é assim, em alguns dias você se olhará no espelho e ficará satisfeita, e em outros irá sentir-se a criatura mais horrenda do universo. Por que com a maternidade seria diferente?
Sendo assim, seria muito mais fácil se todas as mães conseguissem conscientizar-se de que nem sempre se sentirão felizes com a maternidade, assim como nem sempre estão felizes com seu trabalho, seu casamento, seu corpo. Sentir isto significa que ser mãe foi uma decisão equivocada? NÃOOOO, um não bem grande e decidido. Apenas significa que você assumiu mais um dos vários paradoxos existentes na vida, com a diferença de que este é o maior e mais intenso deles. E além de tudo, é eterno.

Apresentando o blog

Decidi fazer este blog assim que me deparei com a mais nova experiência de minha vida: ser mãe. Diante dela, percebi que há muitas coisas maravilhosas ditas a respeito da maternidade, mas há muitas, muuuuuitas outras coisas não ditas, e que se fossem ajudariam muitas mães e se sentirem mais "normais" e menos culpadas por alguns pensamentos e sentimentos que vivenciam.

Sendo assim, o objetivo aqui é publicar alguns textos (com periodicidade indefinida, já que meu tempo e minha disponibilidade já não estão condicionados apenas à minha própria vontade) com pensamentos e sentimentos que vão emergindo desta minha nova vivência.

IDEIA DE MÃE - um blog escrito entre uma troca de fraldas e outra, entre uma mamadeira e outra e às vezes com apenas uma mão, pois há momentos em que o bebê manhoso fica com soluço ou simplesmente insiste em ficar no colo!