sexta-feira, 11 de março de 2011

O pequeno vilão

Era uma vez um pequeno vilão (na verdade esta pequena história vai ser narrada no tempo presente, apenas achei que “era uma vez” foi o jeito mais atrativo de iniciá-la. Clichê, mas atrativo). Quando eu digo pequeno, é pequeno mesmo, literalmente pequeno. Acreditem, ele tem mais ou menos 50 cm de altura (ou deveria dizer comprimento?). O vilão é realmente malvado. Seu passatempo preferido é torturar todos à sua volta, tanto física quanto psicologicamente. Quase um sociopata, esse vilãozinho. Formas de tortura? As mais variadas. Uma delas foi usada inclusive como tortura de guerra: privação de sono. Isso mesmo, o pequeno vilão não deixa que suas vítimas durmam, e quando deixa, faz com que elas despertem poucas horas ou até minutos depois. Outra forma de tortura adotada pelo vilãozinho é a privação de higiene e alimentação. Assim que as vítimas resolvem alimentar-se, tomar banho, ou ir ao banheiro, o pequeno vilão as impede emitindo um som contínuo, irritante, e que não pode ficar sem pronto atendimento. O vilão também adora fazer com que as pessoas à sua volta sintam-se constantemente inseguras e em dúvida. Como ele faz isso? Simples, ele insiste em utilizar um idioma que ninguém, mas ninguém mesmo no mundo compreende. Assim, as vítimas do pequeno vilão nunca sabem com certeza o que ele quer, precisam ir oferecendo-lhe várias coisas até descobrir sua necessidade. E saibam que isto pode levar horas...
Por que o pequeno vilão faz isso? Aparentemente sem motivo. A verdade é que o vilãozinho quer que todos os seus desejos sejam prontamente atendidos, sem preocupar-se se os demais também possuem necessidades a serem satisfeitas. Aliás, ele nem sabe que os outros também possuem necessidades. E o mais curioso é que as maiores vítimas do pequeno vilão são justamente as pessoas que mais o atendem e o amam.
Já descobriu quem ele é? Não? Então lá vai mais uma pista. Além de ser um profissional na arte da tortura, o pequeno vilão possui outro poder. Ele consegue ser imediatamente perdoado por suas maldades. Não há raiva, não há rancor, não há desejo de vingança contra o vilãozinho. Por pior que tenha sido a tortura, por mais horas que as vítimas tenham passado acordadas, por mais fome que estejam sentindo, por mais inseguras que estejam, elas sempre perdoam o pequeno vilão de forma instantânea. Como? Ele possui várias armas para tal finalidade, e estas armas são mais simples do que você imagina. Basta um olhar do vilão, bem dentro dos olhos de suas vítimas, e tudo está resolvido. Um simples balbucio sem sentido também faz com que o torturado esqueça todas as maldades que sofreu. Mas a arma mais poderosa e de efeito mais rápido é o sorriso do pequeno vilão; seja ele genuíno ou causado por um movimento involuntário dos músculos do rosto do vilãozinho, um sorriso apaga da memória das vítimas todo e qualquer resquício de sentimento ruim por esta pequena criaturinha.
Na verdade, há vários pequenos vilões espalhados pelo mundo todo, e a cada dia mais pessoas tornam-se vítimas deles. O mais curioso é que muitas pessoas escolhem ser vítimas de um pequeno vilão, às vezes mais de uma vez. E por que fazem tal escolha? Entre outras coisas, para ter contato com as armas do vilãozinho, as mesmas armas descritas ali em cima. E não há nada mais prazeroso do que ser vítima de tais armas várias vezes por dia, durante vários dias, semanas e anos.
A identidade do pequeno vilão? É variável. Para descobri-la, olhe para o serzinho que neste momento dorme no bercinho ao lado da sua cama, no carrinho no canto da sala de estar, ou brinca com objetos coloridos dentro do chiqueirinho. É isto mesmo, é ele. O pequeno vilão estava dentro de sua casa o tempo todo. Saber disto vai fazer com que você o ame menos, ou queira livrar-se dele? Certamente não. Apenas o fará compreender que tem o privilégio de ser mais uma vítima de um pequeno vilão, com todas as angústias e prazeres que tal condição carrega.

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